As livrarias estão desaparecendo do Brasil

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Desde 2012, o número de lojas no Brasil caiu de 3.481 para 2.500 - bem abaixo do que a Unesco recomenda - Foto Divulgação

Mercado editorial brasileiro encolheu mais de 20% em uma década, com perdas que somam R$ 1,4 bilhão

Em outubro de 2016, a editora Martins Fontes decidiu interromper o fornecimento de livros para um de seus principais revendedores, a Livraria Cultura. Tratava-se de um movimento ousado, dado o peso dessa rede no mercado. Porém, o risco assumido pela empresa, motivado por uma dívida de 500 mil reais, acabou por salvá-la de um colapso que assombra o setor editorial brasileiro. Hoje, o passivo da Cultura com apenas uma editora, a Companhia das Letras, alcança os 18 milhões de reais.

Grandes redes do setor livreiro, Cultura e Saraiva entraram em recuperação judicial em dezembro do ano passado e fecharam dezenas das megalojas espalhadas em capitais de todo o Brasil. O impacto sobre as editoras é profundo, principalmente porque o mercado opera, há duas décadas, no modelo de consignação. Ou seja, as livrarias só repassam às editoras o pagamento pelos livros fornecidos após a revenda ao público – com prazos de até um ano.

A derrocada dessas empresas gerou surpresa entre o público, mas parece ter sido pavimentada ao longo dos últimos anos, confirmando a impressão de que as livrarias estão desaparecendo das ruas e centros comerciais do país. Evandro Martins Fontes, sócio da editora e livraria que leva o nome da família, além de criticar o modelo de expansão adotado pelas duas redes, aponta uma conivência das grandes editoras, que não reagiram ao acúmulo crescente de dívidas das quais eram credoras.

“Essas redes optaram pelo modelo das megalojas, que envolvem altos custos de operação, inclusive os aluguéis. A Cultura só tinha uma loja em São Paulo, que era referência, mas começou a expandir em 2014. Já era um momento delicado, pois a venda digital se expandia. Com a crise, elas sofreram um forte baque, e esse modelo se tornou ainda mais insustentável. Elas foram vítimas da ganância”, diz o empresário.

“O negócio do livro sempre foi de margens pequenas, mas todos pudemos crescer aos poucos, honrando nossos compromissos. Por ser uma empresa de capital aberto, a Saraiva tinha que divulgar os balanços financeiros. Houve um ano em que o faturamento anual deles ultrapassou 1 bilhão de reais, mas o lucro foi de apenas 3 milhões. Eu faturo muito menos e tenho margem de lucro igual ou maior”, explica.

Embora seja possível apontar eventuais escolhas equivocadas nas estratégias adotadas pelas empresas que abriram pedidos de recuperação judicial no fim do ano passado, o negócio do livro já vem sentindo, há alguns anos, os efeitos de mudanças tecnológicas que afetam diversas atividades econômicas. Mesmo que os e-books e dispositivos para leitura digital ainda não tenham força expressiva no Brasil, o tempo dedicado à leitura passou a dividir espaço com a oferta interminável de conteúdo nas redes sociais e plataformas de streaming.

Além disso, novos canais de venda se abriram na internet. Com isso, editoras passaram a ter a opção de vender diretamente para seus clientes, empresas estrangeiras passaram a atuar no mercado nacional sem o custo de lojas físicas – caso da Amazon – e plataformas que não se dedicam exclusivamente à venda de livros passaram a competir com as livrarias.

Se as mudanças foram sentidas pelas principais empresas do setor, o resultado sobre as menores foi devastador. Em condições mais desfavoráveis de negociação, devido ao menor volume de vendas, fechar as portas virou a única saída. Com a possibilidade de encontrar o melhor preço na internet, a livraria do bairro deixou de ser a opção natural para comprar livros.

Dessa forma, a concentração de mercado se aprofundou nos últimos anos, a ponto de Saraiva e Cultura responderem, juntas, por 40% do mercado varejista. Desde 2012, o número de lojas no Brasil caiu de 3.481 para 2.500. É um número bem abaixo da recomendação da Unesco, 20 mil, pela taxa de uma para 100 mil habitantes.

Fidelidade para resistir à crise

Cenário habitual em obras de Machado de Assis, a mítica Rua do Ouvidor, no Centro do Rio de Janeiro, mantém uma tradição de abrigar livrarias históricas desde o século 19, como a Garnier, Universal e José Olympio. Hoje, além de uma megaloja da Saraiva, está ali a Folha Seca, uma sobrevivente do processo de desaparecimento das lojas de rua.

O site da livraria está permanentemente em manutenção. Para comprar livros, ligados a temas afro-brasileiros, samba e futebol, somente in loco. Seus clientes sabem que os preços são mais altos do que nas grandes livrarias, mas fazem questão de prestigiar o lugar que é ponto de encontro de artistas e escritores. Entre eles, Luiz Antonio Simas, vencedor do Prêmio Jabuti em 2016.

“Eu prefiro não comprar em megalivrarias, não compro livros pela internet e sou cliente de uma pequena/imensa livraria de rua. É o que está ao meu alcance fazer como um sujeito que preza os livros, as amizades, as esquinas”, escreveu no Jornal do Brasil. “Fica minha sugestão simples: escolham as suas livrarias de rua e sejam, na medida do possível, fiéis a este amor cotidiano e necessário.”

A comemoração dos 21 anos de funcionamento, no último dia 20 de janeiro, ajuda a explicar como a Folha Seca conseguiu chegar até aqui. Fãs da livraria se amontoavam na rua em torno de um piano de cauda, encomendado para a festa. Entre um copo de cerveja e outro, compravam livros. Não se trata de uma exceção pela data comemorativa. Rodas de samba acontecem com regularidade ali.

Mesmo em dias de semana, é comum encontrar Rodrigo Ferrari, dono do espaço, confraternizando com clientes na Toca do Baiacú, bar vizinho à Folha Seca. Ele acredita que esse atendimento, impensável nas grandes livrarias, possibilitou a sobrevivência do estabelecimento.

“Se for pelo preço, a gente sabe que ninguém vai vir comprar aqui, porque é só você fazer uma pesquisa de dois minutos na internet. Nós fomos criando identidade e estabelecemos outros laços que não são os comerciais, embora sejamos um comércio”.

Foi na mesma Rua do Ouvidor que a Livraria Travessa teve sua primeira loja. Gradualmente, filiais foram abertas em outros bairros da cidade e, neste ano, será a vez de São Paulo e Lisboa receberem a livraria. Fundador da empresa, Rui Campos rejeita a ideia de um “plano de expansão”. Em sua visão, foi justamente o crescimento desenfreado que levou suas concorrentes à situação desfavorável que vivem hoje.

“Ao mergulharmos na crise sem precedentes que o Brasil enfrentou nos últimos anos, as nossas principais redes revelaram as estratégias equivocadas em que se envolveram. Encontrando financiamento fácil característico dos anos Dilma, usaram e abusaram de busca desenfreada por aumento de faturamento visando ‘abertura de capital’, sem nenhuma preocupação com margens e resultados”, diz.

“Conduziram uma abertura acelerada de megalojas, enxugamento de quadros com a demissão dos livreiros históricos e um forte investimento em livros eletrônicos e em e-readers para leitura de e-books que não performaram nem perto do que se apregoava. Sendo as livrarias criadoras de demanda, nunca essa demanda será totalmente atendida por outras livrarias. Muito irá se perder com consequências ruins para nossas editoras e para o mercado livreiro”, avalia.

Novos canais de venda

Segundo pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) divulgada em maio do ano passado, o mercado editorial encolheu 21% de 2006 a 2017, com perdas que somam R$ 1,4 bilhão. Sônia Machado Jardim, presidente do Grupo Editorial Record – que tem 22 milhões de reais a receber de Saraiva e Cultura –, lembra que a venda de livros cresceu em 2018 na comparação com 2017. Logo, afirma, a crise seria pontual dessas grandes redes, e não refletiria um desinteresse generalizado pela leitura no Brasil.

“Para tentar amenizar esse impacto financeiro, o Grupo Editorial Record voltou a investir na venda direta ao leitor, atividade que já teve uma participação importante em termos de venda no passado. Lançamos um clube de assinatura, estamos no marketplace da Amazon e participando de mais feiras. Estamos atentos a toda iniciativa que possa contribuir para aproximar o livro do leitor, porque esse interesse não diminuiu”, afirma.

Essa visão é compartilhada por Ivana Jinkins, fundadora da Boitempo, que publica, há 23 anos, obras de autores ligados ao pensamento crítico internacional. Com um crescimento anual que varia entre 20% e 30%, o grupo se soma a outras editoras independentes que vêm ganhando cada vez mais espaço. Na Feira Literária de Paraty (Flip) de 2018, quase um terço dos 33 convidados era publicado por editoras independentes.

“Desde 2014, viemos investindo na venda direta em nosso site, mas um canal direto muito forte com os clientes são os seminários e eventos que organizamos, nos quais o público pode ter contato direto com o autor”, explica Ivana. “Na Feira da USP do ano passado, vendemos mais que em todos os anos. As pessoas não perderam o interesse pela leitura, precisam ser estimuladas de outro modo”, afirma.

Ela também comenta que a venda para livrarias independentes aumentou após as editoras suspenderem vendas para as empresas em recuperação judicial, o que pode dar sobrevida a este combalido modelo de negócio. A crise também favoreceu a Estante Virtual, plataforma que conecta sebos e compradores de livros usados. Em 2018, 3 milhões de obras foram comercializadas no portal – quase o dobro da média anual de vendas.

“Acreditamos que o livro impresso nunca vai morrer. Há sensações geradas em uma leitura de um livro digital que jamais serão equiparadas à leitura de um livro físico. Dados do mercado também mostram que o crescimento nas vendas de e-books ainda não chegam perto da venda de impressos”, comenta Sérgio Ciglione, CEO da empresa.

Embora os novos canais de vendas de livros atraiam o interesse do público, Bernardo Grubanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias, teme os efeitos de uma desregulamentação ainda maior do mercado. Ele defende a divisão de tarefas entre editores, distribuidores e livrarias para formar uma capilaridade que permita o escoamento dos livros em todo o país.

“Originalmente, o sistema é previsto com funções diferentes, do autor, editor, diagramador e distribuidor. As coisas mudaram com a tecnologia, o que não é necessariamente ruim. Assim como todo mundo é fotógrafo, todos vendem livros pela internet. Nunca houve tanta promiscuidade quanto à circulação comercial do livro quanto hoje”, critica.

“Uma das consequências perversas desse modelo é que o livreiro perde seu cliente para seu próprio fornecedor. Nessa época do ano, as editoras de livros didáticos abrem sites especiais para a venda direta para pais de colégios com 25% de desconto nos preços de capa. Para as livrarias, oferecem 27%. Isso é muito danoso para o sistema. Os livros didáticos representam pelo menos 50% do faturamento anual”, complementa.

No segundo semestre do ano passado, o governo federal organizou um grupo de trabalho para implementar, via medida provisória, a Lei do Preço Fixo. O projeto original, parado no Senado, é de autoria da ex-senadora Fátima Bezerra (PT-RN) e estabelece um desconto máximo de 10% pelas livrarias em cada obra durante um ano após o lançamento de um título. Depois, elas ficam livres para dar o desconto que quiserem.

É o mesmo modelo que a maior parte dos países europeus adota. Trata-se de uma demanda antiga de pequenas e médias livrarias, apoiada pela maioria das editoras. Até o fim do governo Temer, a proposta não saiu do papel. Críticos do projeto apontam que poderia levar a um encarecimento dos livros.

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